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Bira Carvalho: um poeta da fotografia

Atualizado: 24 de Jul de 2020

Com o compromisso de gerar um conhecimento crítico e original, a Equipe de Conteúdo & Comunicação do Fórum conversou com Bira Carvalho, fotógrafo, “rueiro” como ele mesmo diz, amante da boa música e um sensível observador do cotidiano da Nova Holanda, comunidade onde mora, e uma das 16 favelas que integram o Complexo da Maré.

Coordenador do projeto Imagens do Povo, legado da Escola de Fotógrafos Populares (EFP), a qual cursou, Bira não esconde a admiração que sente por João Roberto Ripper, fundador da EFP em parceria com o Observatório de Favelas, em 2004. Seu acervo, de cerca de 17 mil imagens, revela com enorme sensibilidade um dia a dia da favela por muitos desconhecido, cheio de sorrisos, cores, alegrias, personagens comuns e relíquias de uma gente que sabe a dor e a delícia de ser o que é.

O resultado dessa conversa franca e aberta sobre as diferentes percepções e vivências de Bira no seu território como fotógrafo e ativista, marcam o inicio do "Projeto Memória Oral. Novas narrativas sobre patrimônio", com o objetivo de registrar em vídeo e entrevista a atuação de diferentes personagens e suas lutas em busca de transformação social através da arte e da cultura.

Após o seu depoimento de quase 1 hora, Bira ainda respondeu à diversas perguntas da Equipe, em uma entrevista que você confere abaixo. E para assistir ao depoimento de Bira disponível no canal do Fórum no YouTube, clique aqui.


Fórum: Você cresceu com sua mãe adotiva, moradora do asfalto, e depois na adolescência foi viver com sua mãe biológica, moradora da favela. Como foi pra você essa transição entre esses dois territórios?

Bira Carvalho: Mais do que transição, eu acho importante falar sobre percepção. Na favela, já como cadeirante, eu fiz parte de um projeto na Vila Olímpica e aprendia a jogar tênis. A primeira matéria que saiu no jornal O Globo sobre esse projeto e que eu apareci, minha mãe biológica, a Raimunda, aqui da favela, falou pra mim: “ainda bem que foi por isso e não por alguma besteira”. Ao mesmo tempo, a minha tia, que foi minha mãe de alma, teve outra reação. Mesmo nos meus momentos de maior rebeldia, ela dizia: “assim que ele se encontrar e voltar a estudar, você vai ver o que ele vai se tornar”. Por mais que eu fizesse besteira, minha mãe de alma enxergava em mim o que eu me tornei hoje. Isso pra mim era de assustar e até hoje assusta, quando a gente fala dessas diferenças de percepções do outro.


E que impacto teve pra você essa descoberta sobre essas diferenças?

BC: Eu só fui entender sobre a importância disso nas aulas de fotografia do Ripper. E minha mãe biológica só conseguiu mudar a percepção dela sobre mim quando ela viu as minhas fotos. O que eu quero dizer com tudo isso é que a percepção desses dois mundos, asfalto e favela, não são tão dois mundos assim, nós é que somos levados a pensar numa divisão. O “dividir pra conquistar” que o Maquiavel escreveu. Mas quando a gente para pra pensar na relação com o outro, numa relação mais pessoal, a gente descobre muita coisa similar. É isso que eu tenho aprendido. Mas estou bem no início desse aprendizado, por que ele é difícil, exige um exercício diário.


Quando você começou a fotografar no projeto do Ripper, quem eram as pessoas que viam suas fotos?

BC: Eu comecei ainda com a fotografia analógica, de filme. Minhas fotos eram mostradas muito no CEASM (Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré). Chegamos a expor algumas fotos no aeroporto também, a empresa que administrava o aeroporto era patrocinadora do projeto. Mas como era película e era muito caro revelar e ampliar, eu não ampliava muito minhas fotos. Sem as redes sociais isso ainda era um nicho muito pequeno. Eu posto fotos no instagram tem cerca de um ano ou dois. Mas eu tenho cerca de 17 mil imagens no HD do meu computar. Se contar as imagens que os policias destruíram quando invadiram minha casa, eu hoje deveria ter algo em torno de 30, 40 mil imagens. Tem fotos que eu nunca mostrei, tenho fotos em película que ainda estão guardadas. Eu demorei a perceber a importância política desse trabalho fotográfico.


No seu depoimento para o "Projeto Memória Oral", você declarou que no início do seu trabalho você tinha a preocupação em não ser visto como um “cafetão da favela”. Como foi esse processo de conquistar o reconhecido pelo seu trabalho dentro da comunidade?

BC: Algumas fotos eu ampliava com o meu dinheiro mesmo e dava para as pessoas. Mas sempre que eu faço uma exposição, eu mostro as fotos antes. E esse trabalho foi muito facilitado pelas redes sociais. Até então, o retorno que eu tinha do meu trabalho era quase inexistente. Só acontecia mesmo quando eu fazia alguma exposição. Com o dinheiro que eu ganho como aposentado, num mês eu comprava o filme e no outro eu revelava. Não tinha muito como eu dar um retorno pra comunidade muito além das exposições.

Mas mesmo assim muitas vezes as pessoas me pediam pra fazer fotos delas. Uma das primeiras pessoas que me pediu uma foto, não me lembro se em 2004 ou em 2006, foi uma das lideranças do tráfico da facção rival de onde eu moro. Eu pensei: “quer me matar, só pode”. Mas eu fiz a foto, ampliei e dei pra ele. Quinze dias depois eu estava frequentando a casa dele. Era o mínimo de retorno que eu podia dar, mas era uma preocupação que fazia com que eu ganhasse a confiança do morador e conquistasse uma legitimidade. As redes sociais facilitaram muito o contato com o morador e o meu reconhecimento junto deles.


Suas fotos retratam uma imagem da favela muito diferente da imagem veiculada pela grande mídia. No seu trabalho vemos muitas crianças, muitos detalhes do cotidiano, vemos, sobretudo, muita alegria. Se você pudesse mudar a narrativa sobre as favelas, qual seria a sua narrativa?

BC: É muito legal pensar sobre isso. A história dos quilombolas, dos povos originários, a história dos negros escravizados e trazidos pra cá, não foi ele quem narrou a história dele. Acho que é essa a luta que se tem hoje e que motiva esse poder reacionário ter calçado novamente as botas pra tentar impedir o surgimento de novas narrativas. Essas narrativas da história oficial não tem só como propósito tornar invisível uma galera que mora na favela ou estereotipar todo um território. Tem milhares de coisas envolvidas nisso, inclusive fatores econômicos. Quanto jornal não se vende com isso, quantas pessoas não se elegem com esse discurso de violência, quantos carros blindados não são vendidos, quantos remédios tarja preta não são receitados, por que ninguém aguenta viver nessa pressão a vida toda. Tudo isso tem um propósito. É um projeto, melhor dizendo. Mas esse distanciamento entre a gente que é morador periférico está mudando, estamos nos conhecendo, estamos conversando. E eles já perceberam isso e estão apavorados. Por isso que estão reprimindo tanto, estão matando como nunca mataram. Mas esse processo não tem mais volta.



O seu trabalho permite perceber um rico patrimônio imaterial e até mesmo material do seu território. Como você pensa a possibilidade de se ampliar esse reconhecimento das favelas em um momento em que o Rio é escolhido Capital Mundial da Arquitetura?

BC: Deixa eu pensar aqui que bateu um pouco de frio na língua (risos). Na verdade você só é reconhecido quando alguém da Academia legitima toda essa obra. Mas como é que vem esse reconhecimento? Vamos pensar na arquitetura. Nas favelas, as construções que são feitas ali são uma verdadeira revolução, mas o arquiteto ainda vê a favela como aglomeração e não reconhece que essa galera usou um conhecimento próprio para construir. Eu tenho intenção de entrar pra Academia. Mas vejo muitas vezes um conhecimento engessado que quer sobressair pela desvalorização do conhecimento popular. O PAC (Programa de Aceleração de Crescimento do Governo Federal) e outros tantos investimentos nas favelas, muitas vezes encobrem um interesse enorme do político de se eleger ou de tentar se aproximar de quem sempre precisa. Sabe aquele samba do Bezerra da Silva? “O candidato caô caô, subiu o morro sem gravata, dizendo que gostava da massa, foi lá na vendinha e bebeu cachaça, até bagulho fumou”. Mas isso é algo que está mudando, eu consigo ver essa mudança. A galera hoje fala que mora na favela, tem orgulho disso, fala que é quilombola, e fala isso por que essa narrativa está mudando de mãos. Tem um samba do Cartola em que ele está no alto do morro e vê o amanhecer num telhado de zinco. Se você pensar como o zinco esquenta, como é que ele conseguia ver beleza nisso? Mas ele vê e isso legitima um outro poder. Talvez seja essa a luta atual.


Em um outro trecho do seu depoimento para o "Projeto Memória Oral", você falou sobre a importância de se “descolonizar o olhar”. No Brasil, nós temos o mito das união das três raças que tornou natural a ideia de um povo onde as diferenças não existem e que, portanto, segundo essa lógica, não há racismo. O que você acha disso?

BC: Acho que Casa Grande e Senzala é um livro que fala muito sobre isso. Quando se fala do mito de fundação do Brasil, por exemplo. Mas que Brasil é esse? A gente tem que pensar o antes de ser invadido, e não descoberto, e depois disso. A impressão que eu tenho é que em países como os Estados Unidos, por exemplo, como se dificultou essa relação, lá o apartheid deixou claro que preto é preto, branco é branco, aqui é lugar de preto, aqui é lugar de branco, acabou que essa consciência coletiva de preto, de pertencimento, foi maior. O que é esse mito de liberdade do 13 de maio? Quem são os heróis brasileiros que as escolas escolhem mostrar? Aqui só vamos ter mudanças quando a gente tiver uma educação que fale daquele território com o olhar daquele território. Como é que eu ia perceber aqueles heróis se eles nunca foram falados? Toda essa relação é uma construção que faz com que a gente acabe acreditando que somos realmente um povo passivo, esse mito da miscigenação, um país onde o racimo não existe. Talvez esse velar dessa discussão tenha sido mais perverso para nós do que a violência sofrida pelo George Floyd nos Estados Unidos.


Como você vê o fato das pessoas terem tanta dificuldade de dar valor aos heróis do dia a dia, na verdade grandes patrimônios de qualquer comunidade?

BC: Em geral a gente se encontra apenas no caos, como uma reação. Essa galera que não é valorizada, que você chama de patrimônio, e no meu álbum do facebook eu chamo de Relíquias, é o cara que tem importância sim, mas é invisibilizado. É o contexto da nossa história. De Luiz Gama, passando por Luiza Mahin, até o seu Joaquim, uma outra pessoa que eu fotografo muito, que tem 87 anos, e que dos anos 30 pra cá ele lembra de todos os perfeitos, todos os governadores e todos os presidentes, mas que me fala que comprou o diploma dele do primário, em Caxias, por 5 mil réis. Ele chegou aqui em 1948, quando a Nova Holanda ainda não existia. Ele narra a construção da primeira casa. Preto, paraibano, não tem um pingo de gordura no corpo. A partir do momento que eu passo a fotografá-lo, ele começa a sair da invisibilidade, ele começa a ter relevância pras instituições, pra elas, por que pro morador ele já tinha. A escolha de quem fala o quê, de quem tem importância, como é feito esse recorte é que é um problema. A grande questão é quem tem o poder da fala nesses territórios.




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